Traduzido por Patricia Paiva

 O monge perguntou para o Mestre Zhaozhou - Um cachorro tem a natureza de Buda ou não?

Zhaozhou respondeu- Wu!

Esse pequeno diálogo entre o mestre e o monge, tão estranho para alguém que não conhece os caminhos estranhos do Zen, tornou-se um dos mais famosos Gong-na's (Koans) do Zen. Poderia inspirar conversas, textos, e livros Dharma por séculos. O que seria esse "Wu"? E o que tem a ver com zen?

Wu, dependendo de como é pronunciado, "wu" pode ser "nada", "odiar", o número "quinze" ou uma variedade de outras coisas não listadas. Mas que Wu! O mestre Zhaozhou verbalizou que não era nenhum desses- era simplesmente uma expressão de um insight dentro da questão relacionada para o monge que fez a pergunta.

A maior parte de nós pessoas Zen encontramos o Wu! nas antigas histórias de nossos estudos Zen enquanto tentamos descobrir o que Zen é- descobrimos que está intimamente conectado com o conceito de "não-Eu", e "nada". Mas Wu! nada? Eu acredito que Wu! seja o oposto--seja tudo: como a liberdade e a iluminação que acontecem quando despegamos do preto e branco, dualístico, notado na natureza das coisas que nos habilitam a entrar no verdadeiro espírito Zen. Wu! Acontece quando desapegamos de tudo que acreditamos ser real e vamos diretamente ao centro da existência- quando abandonamos a noção de que controlamos tudo.

Eu também o considero como "o oceano do vazio". Não é um lugar distante. Não está alto no céu, não está em uma distante praia: está aqui, agora, e cada um de nós pode experimentar. Nós temos que passar pelo portal. Depois que passamos através dele, entretanto, a terra do Wu! parece invariavelmente como algo longe de alcance- inexplicável mas ainda fascinante.

Porém, uma vez que temos a experiência no "oceano do vazio", é um alívio para nós. ““Olhamos atrás onde nós estávamos e refletimos,” Oh, se eu soubesse todo esse tempo que eu lutei com isso e tinha que desapegar para experimentá-lo.

So, how do we get there? Where can we find a ticket to enter through this gate?

Keido Fukushima, um mestre Zen japonês disse: " A experiência de mu pode, na primeira vez, ser puramente negativa ou passiva, mas não é entretanto. Ser mu, ou vazio de si, permite compreender o que vier. Nosso mundo hoje e tudo que está nele está separado em distinções de bom e mal, nascimento e morte, ganho e perda, eu e o outro, entre outros. Mas ao ser mu, não só o egoísmo desaparece, mas os conflitos que aparecem com os outros se dissolvem também. Aqui está um exemplo simples: quando olhamos para uma montanha, temos a tendência de observá-la como um objeto. Mas se somos mu, não vemos uma montanha como um objeto, nos identificamos com a montanha. Essa transcendência de dualidade pode parecer uma habilidade psíquica ou um poder espiritual. Porém, não é verdade. Ao contrário, é simplesmente e naturalmente um caso de ser livre, criativo e fresco. Nos tornamos seres humanos cheios de amor ilimitado e compaixão." (minha ênfase)

Então, como chegamos lá? Onde podemos encontrar um passe para transpor esse portal?

Há instrumentos diferentes que podemos utilizar: meditação sentado, zazen que é bom- qualquer espaço de tempo que nos devotamos ajuda-nos a ganhar calma e uma mente focada para olhar dentro de nós profundamente e começar a limpar nosso "lixo" interior que pesa e nos detém de tornarmos verdadeiramente livres. Incrivelmente, por meio de prática mesmo por períodos de silencio e "de ficar sentado", muitas dores vem à tona e achamos que por meio da prática somos capazes de lidar e desapegar da dor, dando mais um passo mais próximo do portal Wu!

Wu! Não é algo que queremos que ocorra suspirando e dizendo: " algum dia talvez eu tenha essa experiência". No Chan, nós ativamente lutamos por isso. Nós constantemente nos desafiamos para desapegar da nossa visão egocêntrica para entrar em harmonia com tudo no mundo. Temos que nos convencer de que nossas percepções individuais estão inerentemente erradas. Nada que nós percebemos está correto- simplesmente porque nós, seres humanos, temos problemas de olhar para as coisas sem colocar nossas opiniões pessoais sobre essas experiências. Não vemos só uma árvore- vemos uma arvore bonita ou feia ou uma arvore que bloqueia a vista da montanha ou uma árvore que precisa ser cortada. Não vemos só uma pessoa- vemos uma criança barulhenta ou uma pessoa que se move lentamente ou um companheiro de trabalho que ameaça nosso cargo ou uma pessoa atraente que queremos namorar. Não vemos uma pilha de pratos para lavar- vemos uma tarefa desagradável, ou vemos as coisas legais que poderíamos estar fazendo ao invés de lavar pratos ou sentimos raiva e ressentimento da pessoa que achamos que deveria estar lavando os pratos.

Podemos experimentar Wu! -aquele vazio e alívio- toda vez que abrirmos mão do nosso apego. Quando temos um trabalho a fazer, simplesmente o fazemos- sem murmurar, sem ficar sonhando acordado com outras coisas que temos que fazer ao invés daquilo, sem nenhum tipo de ligação. Quando encontramos uma pessoa, nós simplesmente encontramos uma pessoa- sem nenhum tipo de julgamento ou "primeira impressão". Quando experimentamos uma emoção, temos a experiência e depois a deixamos ir. Não nos apegamos a ela e não alimentamos essa emoção. Leva tempo e paciência e perseverança, mas isso não acontece. Cada passo na jornada é importante. Então, qual foi o motivo para a pergunta sobre o cachorro ter a natureza de Buda e a resposta de Zhaozhou? No caminho Zen, nós temos que responder essa questão a nós mesmos, mas o comentário de T.Griffith Foulk pode nos trazer mais perto do que Zhaozhou disse: "apesar dos seres vivos terem a natureza de Buda, a menos que eles percebam esse fato ao 'ver essa natureza', eles permanecerão na ilusão e continuarão a sofrer...

"Por meio do portal Wu!, todos terão os olhos abertos!


Nota história: Zhaozhou morou na China de 778 à 897 e foi conhecido por suas ações estranhas, aparentemente paradoxais. Mas por meio dessas ações, ele conectou muitas pessoas com elas mesmas- com sua Natureza Buda. Zhaozho foi conhecido como o Maior mestre Chan da dinastia Tang e muitas das suas histórias foram gravadas como Gong-a n's (koans) no Blue Cliff Recorde e no Gateless Gate.