Traduzido por Patricia Paiva

Por que nos sentir sozinhos? Nosso planeta não está na Via Láctea?
- Henry David Thoreau: Walden: Solidão

 
Roger Miller, aquele gênio lírico do Texas, foi impulsionado ao estrelado em 1965 quando lançou o álbum Rei da Estrada: um álbum que apresentou sua mais famosa música que tinha o mesmo nome. Começa assim: “Trailers para vender ou alugar, quartos para locar, cinqüenta cents Sem telefone, sem piscina, sem animais  de estimação, eu não tenho nem cigarros Ah, mas... duas horas de varrição  compram um quarto de oito por doze de cinqüenta cents  Eu sou um homem de posses de forma alguma, o rei da estrada”

Por que esta música deveria, inspirada quando Miller viu um pedinte em uma loja de presentes no aeroporto, cativar milhões de nós? Não importando quais eram nossas religiões ou posses econômicas, estávamos todos ligados escutando a narrativa contente de um vagabundo, o Rei a Estrada. Será que nunca tínhamos considerado antes o que uma vida de simplicidade podia nos fazer? Roger Miller nos fez pensar sobre nossas vidas e que parte de nós desejamos a simplicidade e a alegria da liberdade que isto nos traz.

Mas se a simplicidade é tão desejável, por que nós lutamos não arduamente para viver vidas complicadas? O que alguns almejam, outros temem.

O Rei da Estrada viajava em sua rodovia sozinho. Temos sempre a tendência de ligar estar sozinho com ser rejeitado e alienado. A música nos intrigou, pois era um testamento a solidão- e solidão é o oposto de isolamento.

A solidão não gosta de ficar só. A solidão fica feliz em ficar com ela mesma. Por que nós ficamos tão envergonhados ou melindrosos de ficarmos sozinhos com nós mesmos? Acordamos de manhã e a primeira coisa que fazemos é ligar a televisão, cujo trabalho é nos deixar ligados e insistimos em ficar acordados até estarmos prontos para dormir no final do dia. Se assistirmos ou não, adoramos escutar as vozes e atividades de outras pessoas. De alguma forma, até nossas imagens na tela nos conformam.

Quando paramos para analisar nossas vidas diárias, nós descobrimos quantas atividades são feitas para aliviar nosso medo de estar só. Esperamos em filas nos restaurantes e levamos horas para comer, o que poderíamos fazer rapidamente em casa. Vamos para shoppings lotados para fazer coisas que não precisamos. Vamos para livrarias para olhar as prateleiras por meia hora e gastamos duas horas na cafeteria conversando com estranhos. Reunimos-nos em clubes, organizações sociais e religiões por nenhuma razão se não evitar ficar sozinhos conosco e ganhar um senso de pertencer. Pertencer à que?

A ironia é que crescimento espiritual, aquilo que é comum a todas as religiões, diz que devemos olhar para dentro e não para fora... isto demanda que de alguma forma transformemos aqueles sentimentos de medo de isolamento em um amor tranquilo pela solidão. Zen tem a solução para nós: começa quando simplificamos nossas vidas. Quando estamos incessantemente em movimento- organizando a casa, cuidando da família, trabalhando em nossos empregos exigentes- enquanto estamos acordados e preenchemos nossas vidas com atividades, não temos tempo de olhar para dentro. Algo ou alguém clama por nossa atenção; e num senso muito real, nós estamos aliviados de termos uma desculpa ou uma razão para mudar a atenção de nossas necessidades espirituais.

Começamos analisando cada uma de nossas atividades e com uma intensa honestidade nos perguntamos se realmente precisamos delas. Se pudermos omiti-la, o fazemos.

Vamos analisar um exemplo comum de ir às reuniões religiosas. Vamos ao local do Zendo ou templo uma, duas vezes na semana, pois nos sentimos obrigados? Ou porque nos sentiremos culpados caso contrário? Estamos tentando provar para nós mesmos ou os outros que nós somos Budistas? Por acaso nós gastamos uma hora nos preparamos para a ocasião, uma hora dirigindo para o evento em um tráfego intenso, uma hora durante o evento- e enquanto isto, tudo que deixamos para fazer depois está nos incomodando: “Tenho que lavar roupas, fazer as compras, tirar o lixo, checar emails, retornar telefonemas, e pagar contas”. Enquanto nós sentamos para meditar ou escutar um sermão, nossas mentes estão rodopiando com pensamentos de responsabilidades negligenciadas e com as tensões do tráfego. Estressados, não estamos preparados para meditar ou, de nenhuma outra forma, visitar nossas vidas internas. Quando a cerimônia esta acabada, dirigimos de volta para casa rezando para que, com um pouco de sorte, possamos ainda fazer nossas tarefas. Não requer muita analise para compreender que nós gastamos muito tempo e que nossos esforços são contraproducentes. Mas nunca paramos para analisar nada. Continuamos a nos iludir, seguindo um programa que satisfaz nossas necessidades espirituais aparentemente e superficialmente.

Zen requer que simplifiquemos nossas práticas religiosas, bem como nossas vidas. Ao invés de gastarmos tempo adquirindo bens materiais desnecessários ou deixar para depois tarefas domésticas importantes para participar de eventos religiosos infrutíferos, nós podemos fazer o que é realmente importante e então, quando sentarmos para meditar, podemos relaxar e sentirmos livres da ansiedade. A disciplina do desapego material e social é como qualquer outra disciplina.

Enquanto tiramos as camadas das atividades de nossas vidas para viver o que é essencial, um novo universo se apresenta para nós- nos tornamos livres do fardo que carregamos e logo descobrimos a alegria da solidão. Tornamos-nos uma pessoa Independe no nosso Caminho, como Miller colocou: um Rei da Estrada.

O rei da estrada

Trailers para vender ou alugar, quartos para locar, cinqüenta cents
Sem telefone, sem piscina, sem animais de estimação, eu não tenho nem cigarros
Ah, mas...duas horas de varrição compram um quarto de oito por doze de cinqüenta cents
Eu sou um homem de posses de forma alguma, o rei da estrada
Terceiro vagão, trem da meia-noite, destino...Bangor, Maine
Terno e sapatos velhos e gastados, não pago as mensalidades do sindicato
Fumo charutos velhos que achei, curtos, mas não grande demais por aí
Eu sou um homem de posses de forma alguma, o rei da estrada
 
Conheço cada maquinista de cada trem,
Todos os seus filhos, e todos os seus nomes
E cada anúncio de cada cidade,
E cada bloqueio que não está bloqueado quando não há ninguém por perto
Eu canto, trailers para vender ou alugar, quartos para locar, cinqüenta cents
Sem, telefone, sem piscina, sem animais de estimação, eu não tenho nem cigarros
Ah, mas...duas horas de varrição compram um quarto de oito por doze de cinqüenta cents
Eu sou um homem de posses de forma alguma, o rei da estrada, o rei da estrada

Tradução: Rufus Wainwhite (website)

O rascunho original da letra de “O Rei da Estrada” de Roger Miller está agora pendurado em uma moldura no Country Music Hall of Fame (Hall da Fama da Música Country).