Traduzido por Patricia Paiva

maskscomedytragedy Não é com frequência que eu assisto a um filme e o desempenho do ator é tão atraente que saber sobre sua vida é mais importante que todo o resto.

Este foi o caso ao assistir ao desempenho de Heath Ledger como o Coringa no filme Batman: o Cavalheiro das Trevas. O mesmo ator que fez um papel trágico de um homossexual romântico em Brokeback Mountain e Bob Dylan em Não estou lá.

Alguns meses depois de completar a filmagem de Batman, Heath Legder morreu de uma overdose acidental de remédios, de acordo com o Medical Examiner de Nova Iorque. Estes medicamentos incluíam oxycodone, hydrocone, diazepam, temazepam, alprazolam e doxylamine.

Heath Legder pertencia a uma classe de atores conhecidos como ¹Method Actors. Outras performances surpreendentes que recentemente foram feitas são de Christian Bale em O Maquinista, Rooney Mara em A garota com a Tatuagem de Dragão e Philpip Seymour Hoffman em O Homem mais procurado, estes são um dos poucos selecionados de uma grande lista.

Os atores chamados Method Actors que são mais incríveis são capazes de completamente imergirem nos papeis e se tornarem os personagens: a distinção entre o “eu” e o papel desaparece.

Tão desafiante quanto imergir no papel a esta altura, pode ser igualmente desafiador sair dele pois o compromisso com o personagem torna-se importante.

Heather Legder descreveu o desenvolvimento do seu papel como Coringa para Empire Magazine (Revista Empire)

“Eu sentei no quarto no hotel em Londres por volta de um mês, me tranquei, escrevi um pequeno diário e experimentei vozes- era importante tentar achar uma voz e uma risada que fossem de alguma forma icônica.

“Eu acabei me tornando prisioneiro de um psicopata-alguém que tinha pouca ou nada de consciência com suas ações.

“Ele é só um absoluto sociopata, um sangue-frio, um palhaço que é assassino em massa, e Chris (o diretor) me deu passe-livre. O que é divertido, pois não há dimensão real para o que o Coringa pode dizer ou fazer. Nada intimida mais ele e tudo é uma grande piada.”

Enquanto há processos para “entrar” em um personagem, há pouco suporte para que atores quando eles querem sair de um- é simplesmente assumido que eles o podem fazer.

Soldados enviados para o campo de batalha na Guerra do Vietnam foram preparados pelos militares para lutar e era assumido que quando eles voltassem para casa, todos facilmente se ajustariam de volta à suas vidas antes da guerra. Os militares teriam feito seu trabalho.

Não haveria mais necessidade para dar suporte. A escola de artes dramáticas não é diferente. O ator tem que achar e lidar com os efeitos psicológicos de sua arte sozinho.

Algumas pessoas estão bem informadas dos perigos inerentes da metodologia de atuar, especialmente quando seu papel acarreta emoções extremamente complexas e “escuras”.

Larrah Bolten comentou sobre Quora: “Você pode dizer a si mesma que foi só sua personagem, mas se você é um bom ator foi “você”, então leva um tempo para lidar com isto depois.

É por isto que nós perdemos Heath Legder, eu acredito. Seu papel como Coringa foi muito “pesado” para ele sobreviver. Imagine se você fosse aquela pessoa (um matador em série demente mental) mesmo que brevemente. Poderia ser difícil para lidar se não fosse conivente com suas verdades morais?

É fácil explicar doenças mentais em atores como condições pré-existentes, o que é uma atitude usual tomada pela sociedade e a mídia. Mas como uma porção enorme de soldados que voltam do Vietman que são diagnosticados com Desordem de Stress Pós traumático--uma desordem que se manifesta por meio de uma variedade de distúrbios neuropsicológicos- não foi claramente por condições “pré-existentes” de doenças mentais. Seria prudente, da mesma forma, considerar a possibilidade de que o processo de atuação pode ele mesmo, alterar nossas fundações de senso de identidade que pode, por sua vez, levar a manifestações de doença mental.

Todo o graduando do Departamento de Psicologia da Universidade Stantford desde 1971 sabe que o Experimento de Lúcifer, concebido e conduzido pelo Psicólogo Phil Zimbardo, cuja missão era entender os efeitos da encenação na psique humana.

Está aqui o que ele fez: isolou uma seção no porão do Departamento de Psicologia de Stanford para criar uma jaula bem parecida com o real. Então convidou alunos voluntários para pagar $15 por dia para atuarem.

Metade deles seriam guardas e a outra metade seriam os prisioneiros. A experiência duraria duas semanas. Dinheiro fácil e parecendo divertido, não era difícil arranjar voluntários. Seria tudo menos divertido para quem estava envolvido.

Dr. Zimbardo, querendo fazer as coisas mais realistas quanto o possível, tinha “criminosos presos” por policiais de verdade, que eram algemados, vedados e levados para suas celas onde eram despidos e colocados em batas.

Os “guardas” não recebiam instrução de como se comportarem, só sabiam seus deveres: usar óculos espelhados, colocar papel higiênico sobre as cabeças dos prisioneiros quando passassem no hall para ir ao banheiro, fazê-los memorizar uma lista de obrigações com punição se eles não conseguissem.

Eles nunca tinham sido instruídos a atormentar ou ameaçar os “prisioneiros”. Mesmo assim, foi o que aconteceu exatamente. Saul McLeod (2008) resumiu este acontecimento desta forma:

Com horas do começo do experimento, alguns guardas começaram a atormentar os prisioneiros. Eles comportaram-se de uma maneira brutal e sádica, aparentemente gostando disto. Outros guardas começaram a participar e assim outros prisioneiros foram atormentados também.

Os prisioneiros foram insultados e receberam ordens mesquinhas. Eles eram mandados a fazer tarefas sem nexo e chatas e foram totalmente deshumanizados.

Os prisioneiros logo adotaram um comportamento de prisioneiros reais também. Eles falavam de problemas na prisão durante um bom tempo. Eles “contavam piadas” sobre os outros para os guardas.

Eles começaram a levar as regras a sério mesmo que estas regras estivessem lá para seu próprio benefício, e que sua violação seria desastroso para todos eles.

Alguns começaram a ficar do lado dos guardas contra os prisioneiros que não obedecessem.
Depois de alguns dias, o relacionamento entre os prisioneiros e os guardas mudou sendo que a mudança de um acarretaria a mudança do outro.

Lembre-se que os guardas estavam firmes no controle e os prisioneiros totalmente dependente deles.
Quanto mais os prisioneiros se tornavam dependentes, os guardas ficavam mais irrisórios com eles.
Eles estavam satisfeitos em segurar os prisioneiros e deixava-os saber disto. Quanto mais o contentamento dos guardas crescia, mais submissos se tornavam.

E quanto mais submissos se tornavam, mais agressivos se tornavam os guardas.
Eles requeriam mais obediência dos prisioneiros.

Os prisioneiros estavam totalmente dependentes dos guardas para tudo, então tentavam agradá-los, como contando piadas dos colegas de prisão.

Um prisioneiro teve que ser solto depois de 36 horas por conta de incontroláveis explosões de grito, choro e raiva.

Seus pensamentos tornaram-se desorganizados e ele aparentava estar em estágios iniciais de depressão.
Dentro de alguns dias, outros três também tiveram que ir embora mostrando sinais de desordem que poderiam provocar consequências duradouras.

(Estes eram aqueles considerados estáveis e normais um pouco antes.)

Zimbardo (1973) teve a intenção de levar o experimento por 15 dias, mas no sexto dia, estava terminado.

Christina Maslach, uma Ph.D recente em Stanford, trazida para conduzir entrevistas com os guardas e prisioneiros, fortemente rejeitou quando viu os prisioneiros sendo abusados pelos guardas.

Cheia de raiva, ela disse: “É terrível o que vocês estão fazendo com estes garotos!” Dentre 50 ou mais pessoas que viram a prisão, ela foi a única a questionar a moralidade dos acontecimentos.

Depois do evento, um dos guardas, claramente chocado pela experiência, deu este depoimento durante uma entrevista:

“Eu, eu tinha certeza de que era incapaz deste tipo de comportamento.”

“Eu, eu fiquei surpreso, você sabe, eu fiquei consternado de descobrir que eu podia, eu realmente podia ser um, que eu podia, uh, agir de uma maneira que eu estava tão, tão absolutamente desacostumado a nada que eu havia sonhado em fazer.

E eu, e quando eu estava fazendo isto, eu, uh, não senti remorso, eu não senti nenhuma, uh, culpa, só depois, depois disto quando eu comecei a refletir sobre o que tinha feito, este comportamento que veio sobre mim, e percebi que era,uh,parte de mim e eu não tinha percebido ante.”

(transcrito de Quiet Rage: The Documnetary-Documentário Raiva quieta)

Muito foi aprendido com esta experiência em muitos níveis. Quando as pessoas são colocadas em situações nas quais eles têm permissão de serem “mal”, eles podem (não todos os guardas, entretanto, neste caso, mas muitos se tornaram)

Quando nós atuamos em um papel, o mesmo pode atuar em nós também, alterando nosso comportamento e também nosso senso de identidade. Se pensarmos que podemos ser capazes de fazer coisas más ou não, este estudo, e outros como o famoso Milgram Experiment (Experimento Milgram), mostram que todos nós estamos suscetíveis a nos comportar de forma que nunca pensaríamos ser capazes antes.

O que isto tem haver com Chan? Chan oferece um caminho para o entendimento do “Eu” natural, não quem pensamos ser, mas quem nós realmente somos, nossa essência. Enquanto caminhamos por este caminho, nós podemos também descobrir quais não são os reais aspectos do nosso ser, fundamentalmente quem somos: nós aprendemos o que é real e o que é ilusório.

O processo mostra uma grande variedade de elementos mentais e emocionais que estavam guardadas, por repressão ou por rejeição intencional. Muitos dos passos no caminho de Chan são desafiadores para vivenciar porque durante o processo nós descobrimos coisas que são “escuras” e desconfortáveis, algumas vezes elas são amedrontadoras e algumas apavorantes.

Mas o valor de descobri-los é que uma vez que você os conhece, eles se tornam inofensivos, não oferecem ameaça, não residem mais na nossa psique e não nos influenciam de forma que não queremos para causar depressão, raiva, ódio ou medo.

Atuar é um mecanismo poderoso para por para for a emoções inconscientes porque nos dá permissão para; nós somos livres de responsabilidade porque enquanto estamos atuando, não somos explicitamente nós. Mas a expressão real da emoção é fundamentalmente real e verdadeira, pois nós a percebemos.

Se estivermos atuando ou não, nós estamos sentindo emoções então é real: está dentro de nós e nos afeta. Atores chamados de Method actors, enquanto são extremamente divertidos de assistir, podem não saber, e mesmo sabendo algumas vezes, sacrificar-se por nossa causa.

Uma vez que os atores levam algum tempo investigando o lado sombrio (que todos nós temos) e desvendando este lado conscientemente, eles estão livres para atuar com impunidade para represália mais tarde. Reconhecer que atuar é em si mesmo levar a um sentido alterado da identidade, nós devemos ser cuidadosos para não atribuir comportamentos aberrantes a problemas mentais quando estes podem conter simplesmente traços normais dos seres humanos.

Experimentos como os que foram descritos acima, não são comuns por conta de posturas éticas válidas. Mas eles nos dão uma pausa e nos faz refletir em quem nós pensamos ser e investigar se nossas conclusões são justificadas e baseadas na realidade ou em um resultado de uma auto-imagem artificial que queremos ter.

Eu frequentemente digo, Chan é sobre desvendar quem somos para descobrir nossos “Eu”. Quando falhamos em fazê-lo, nós nos abrimos para um leque diversificado de problemas que pode revelar humor, atitude, fala e comportamento “sombrios”. É triste quando um talentoso ator como Heath Ledger é perdido, mas é trágico se nós falharmos em dar atenção a lições de vida que ele nos deixou.


¹Method Actors: Método de Interpretação para Atores conhecido como “O Método”